Confissões de um Moribundo
É Dia dos Pais.
Estou no hospital.
São quase 17h30 de Domingo, dia 08/08/2010
Cheguei no Pronto Atendimento com fortes dores no peito. Pontadas que coincidiam com meus batimentos cardíacos. Os mesmo batimentos que me mantém vivo são os que hoje me colocaram nessa cama.
Minha família está em um café colonial comemorando o dia do meu pai. Eu pedi que eles fossem sem mim, com a promessa que trouxessem docinhos. Não quero estragar o dia; por mais que tenha sido uma infelicidade e não minha culpa, já me bastou a cara da minha mãeao me trazer aqui.
Queria ter me observado durante o dia. Nunca fui atendido tão prontamente em um hospital: ao relatar as dores no peito fui levado a uma sala onde foram colocados eletrodos ao longo de todo o meu corpo, e um eletrocardiograma foi feito. Tive medo; não sei se do resultado ou do processo, mas para mim que toda aquela parafernalha médica ia me dar um choque a qualquer momento.
Quando um funcionário apareceu com uma cadeira de rodas para me trazer para a UTI cardiológica, eu me aproximei perigosamente do desespero. Foi nesse momento que tudo começou a passar pela minha cabeça: “Pessoas com 20 anos tem infartos?”, “Mas como é possível? Eu levo uma vida tão saudável.”, “Será que foi aquele cigarrinho que eu fumei ontem?”. Mas a pergunta que mais martelava dizia respeito auma única coisa: “E se for? E se eu tiver problemas cardíacos, como isso vai afetar a minha vida?”.

Eu só conseguia pensar se eu ia ter que parar de beber, parar de sair, de andar de bike. E meus sonhos, como pular de pára-quedas e mochilar pela Europa? Eu ia ter que mudar minha alimentação? Parar de comer sal ou açúcar? Ia me tornar um daqueles jovens cardíacos e problemáticos que nenhuma mulher quer para ser pai dos seus filhos? Nesse momento a dor não importava mais.
Eu sempre me orgulhei tanto de ser saudável. Tudo fora disso, minhas cicatrizes, até o câncer que eu tive com 3 anos, eram mais motivo de orgulho; mostravam que eu era forte, que eu aguentava a barra. Mas dessa vez foi diferente: Eu me senti trapaceado, deixado para trás. Um sentimento de medo e principalmente de impotência me dominaram. Era como se dessa vez a brincadeira tivesse ido longe demais.
Não era para ser assim, sabe? Eu tinha planos. Eu tinha um café coloinal para ir. Eu tinha aula amanhã cedo. O primeiro dia do semestre. Marcaria o início de uma nova fase, de mais responsabilidade e compromisso. Mas estou aqui, internado nesse lugar mórbido ao qual sinto estar criando vínculos que gostaria que não tivessem que existir.
Muitas coisas passam pela minha cabeça. Estou esperando o horário de visita para dar boa noite e tentar mais um feliz Dia dos Pais antes de dormir. Recebi uma ligação que me fez muito bem e espero não ter que voltar a um hospital para voltar a escrever. Se há algo que sobra em um leito de hospital, são reflexões.




Já passei pelo mesmo caso que você. E já pensei muito num leito de hospital.
Fiz duas cirurgias cardíacas num espaço de dois anos (com 5 e 7), e acredito que muito do meu desenvolvimento intelectual tenha vindo com minhas experiências hospitalares. Mas não só o intelectual não, mas aprendi que a força e a vontade de viver são maiores do que qualquer problema.
Espero que tudo se resolva pra Você, Pedro. Por sorte, não há de ser nada grave.
Um beijo
Você não faz ideia de como eu me senti quando o Colin me contou o que ‘tava acontecendo e que você estava internado. Meus órgãos afundaram dentro de mim e a única coisa que eu pensava era “Pedro, seu teimoso! Fica bom logo, seu bostinha.” e eu fiquei repetindo isso mentalmente até receber sms do mesmo Colin, dizendo que você ia sair da UTI e teria alta no dia seguinte.
Não posso dizer que entendo qual é o desespero de estar na UTI ou o desespero de pensar “meu deus, eu posso ter problemas graves”, mas como você mesmo disse ali em cima, você é forte. Não há de ser nada. E você vai ficar bom logo e por um bom tempo.
Não nos dê mais sustos!
Um super beijo cheio de saudades. <3